Hélio – continuação…

E então, sua imagem refletida no espelho imundo respondeu sem mover os lábios:
Meu chapa, que tal tirar a velha PT945 do armário, limpá-la e sair para se divertir? Você pode ir até uma loja de departamento… ou uma escola…
A voz ecoou na cabeça de Hélio por alguns segundos, até que percebeu estar parado com os cotovelos apoiados sobre a pia contemplando a própria face mal barbeada.

Hélio

Antes que a madrugada conseguisse sedar Hélio e nina-lo por horas no mundo dos sonhos, uma brisa soturna e desastrada quebrou o silêncio do quarto ao desabar sobre a janela. Hélio arregala os olhos e ergue-se sobre os cotovelos, dando ar ao peito que pula. O coração não pára mesmo depois da ciência de Hélio alerta-lo sobre a razão do estrondo. Foi só o vento.

Mas o que é que está acontecendo com Hélio? Por que um homem, com a alma voltada totalmente ao dia – que tem o espírito do guerreiro de manhã, a astúcia do general pela tarde e a leveza do civil inocente à noite – hoje não consegue pegar no sono?

Hélio vira na cama com a certeza de que o que não é o vento que lhe traz a insônia. Já se livrou daqueles pesadelos que o atormentaram na semana passada. Mesmo com os pesadelos, Hélio dormiu como um bebê. Nem a conta corrente sem fundo, honrada com juros e correção no início do ano passado, lhe tirara tanto o sono.

Não é a solidão. O coração de Hélio está completo, apesar de dormir sozinho na maioria das noites. Não é o frio recém-nascido de inverno – que Hélio detestava. Mas que saco! Por que é que não durmo de uma vez?! Não é o travesseiro de penas de ganso. Não é o novo lençol deslizante de cetim. Vai ver é essa porcaria de lençol novo, maldito cetim. Se tivesse assistido à TV, Hélio poderia estar impressionado. Não é também o livro “Realize seus sonhos”, fechado em copas e que há dias pesa no criado-mudo. Desisto!

Hélio desiste de tentar entender sua falta de sono e se entregará aos pensamentos fúteis até às 5h30 da manhã, quando o sono sorrateiro vai vencer a insônia e fazê-lo dormir.

O relógio tocou às 6h. Hélio despertou da inércia da noite com meia hora de um sono tão leve quanto a manhã que poderiam ser vista da janela, ali fora, se Hélio tivesse olhado a janela.

Hélio olhou no espelho. Olheiras. Ei, Hélio, me conta, por que você não conseguiu dormir?